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domingo, 6 de maio de 2012

Ser Poeta Autora : Florbela Espanca






Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
 
 
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
 
 
E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!







Logo na primeira estrofe, percebemos a superioridade decorrente do fato de se ser poeta, pois quando o sujeito lírico afirma que morde como quem beija, demonstra a capacidade de transformação do bruto e doloroso em algo singelo e suave – como uma espécie de poder alquímico, que transforma o metal vil em ouro. Quando são aproximados os sintagmas mendigo e rei, notamos a presença dos arquétipos do desvalido e do todo-poderoso, que aqui aparecem reformulados, uma vez que aquele – que vive em miséria – tem o poder de dar o que poderia ser dado apenas por um rei. O seu reino, neste caso, possui a riqueza da criação e da imaginação.