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quarta-feira, 3 de julho de 2013

A parábola do Juiz e da viúva Lucas 18:1-8

 
 
 
 



Contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer.
dizendo: Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava os homens.
Havia também naquela mesma cidade uma viúva que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário.
E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens,
todavia, como esta viúva me incomoda, hei de fazer-lhe justiça, para que ela não continue a vir molestar-me.
Prosseguiu o Senhor: Ouvi o que diz esse juiz injusto.
E não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que dia e noite clamam a ele, já que é longânimo para com eles?
Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Contudo quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? (Lucas 18:1-8)



 
 



Baixe o áudio do Pod Amar 3 no link:
 
 
 
 

Neste artigo queremos refletir sobre uma das parábolas de Jesus, e apesar de sua interpretação ser muito discutida pela diversas linhas teológicas, acredito ser uma das mais belas lições do Cristo com a finalidade de nos dar bom ânimo, esperança e perseverança. Tentaremos com o estudo dos costumes, da língua e da história do Judeu do primeiro século contribuir para o melhor entendimento da lição da parábola.
Não se discute que o texto tem uma belíssima mensagem sobre a importância de orar e nunca desanimar, isto nos deixa claro o evangelista Lucas no 1º versículo do capítulo 18 na introdução da parábola: ´´Contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer.``(Lucas 18:1), mas tradicionalmente a interpretação da parábola do Juiz iníquo é problemática porque a corrente majoritária dos estudiosos consideram que Jesus incentiva seus seguidores a ter um hábito de orar mecanicamente , repetidas vezes, até convencer a Deus a atender seus pedidos. O pastor, escritor e biblista inglês Herbert Lockyer aconselha ao crente em seu livro ´´Todas as parábolas da Bíblia`` a serem mais específicos em relação a seus pedidos a Deus, portanto segundo este importante teólogo não basta pedir um carro, mas deve-se dizer o modelo, a cor, o ano, e outras características para que Deus possa atender. Embasa seus argumentos afirmando que a viúva foi específica e perseverante em seu pedido por isso obteve a graça.
Outra problemática  deste tipo de leitura é a comparação de Deus Pai, que é todo de amor , misericórdia e justiça com seus filhos,  com a figura de um Juiz corrupto, egoísta, arrogante e coração duro.
Vemos como estes argumentos e conclusões vão em contradição flagrante com o ensino de Jesus, se analisarmos diversas passagens dos evangelhos canônicos, como por exemplo no inesquecível sermão do monte, quando ele fala assim :
´´E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos.Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lhe pedirdes.``(Mateus 6:7-8)
É claro, tanto neste trecho quanto em outras passagens evangélicas ,que Jesus Cristo revela Deus como um criador amoroso, generoso em bênçãos e dádivas para com seus filhinhos, e não como um ser orgulhoso que quer humilhar seus filhos e satisfaz-se apenas com muita oração e penitência. Por isso que acreditamos que se analisarmos os costumes e a língua da época poderemos compreender um sentido correto e mais profundo deste ensino de Cristo.
O texto parabólico de Lucas é dividido em 3 partes:
  1. a introdução do evangelista, no versículo 1º.
  2. a parábola propriamente dita, nos versículos de 2 a 5.
  3. a conclusão da parábola e a lição moral do Cristo, nos versículos de 6 a 8.
Na introdução, além de explanar o tema que Jesus vai aprofundar seus ensinamentos, também revela para qual  público ele estava falando. Lemos no capítulo 17, anterior ao da parábola estudada, no versículo 22, que depois de explicar aos fariseus que o Reino de Deus não tem aparência visível porque está dentro de nós, Ele se volta unicamente para seus discípulos e esclarece sobre os sinais simbólicos que seriam vistos no dia do Juízo.
Os manuscritos mais antigos dos evangelhos, que são as fontes mais confiáveis dos ensinos do Mestre Jesus, foram escritos em grego Koiné, sem espaços entre as palavras , sem separação de capítulos e versículos, sem pontuação e sem acentuação das palavras. E sabendo-se que estas normas gramaticais e divisões se deram entre os séculos IX ao XIV, os maiores linguistas bíblicos defendem que existe uma continuidade entre os capítulos 17 e 18, e que esses discursos foram ditos num mesmo momento, além de defenderem a introdução da parábola como original e não uma adição posterior. Portanto, os especialistas afirmam que Cristo contou a parábola para os seus discípulos.
Já a parábola propriamente dita nos traz 2 personagens, que apesar de interagirem entre se, são símbolos totalmente opostos para a comunidade da época.
Jesus inicia a narrativa nos apresentando um juiz, símbolo de poder e autoridade dado por Deus sobre a vida da população. Muitos textos do Antigo Testamento explicam a importância, o poder e como deveriam julgar estes oficiais da Lei de Deus. No Deuteronômio 16:18-19, Moisés determina ao povo:
´´Juízes e oficiais porás em todas as tuas cidades que o SENHOR teu Deus te der entre as tuas tribos, para que julguem o povo com juízo de justiça. Não torcerás o juízo, não farás acepção de pessoas, nem receberás peitas; porquanto a peita cega os olhos dos sábios, e perverte as palavras dos justos.``Deuteronômio (16:18-19)
Também vemos a mesma ordenança no 2º livro de Crônicas no capítulo 19 e versículos de 6 a 7.
Mas Jesus em sua parábola conta que o Juiz de certa cidade não temia Deus e não se preocupava em seguir seus mandamentos, como também não respeitava os homens e seu código de honra e costumes, logo vemos que o personagem que Jesus monta pra sua lição era de um homem sem princípios, sem limites e sem honra, preocupado exclusivamente a atender suas próprias vontades.
O outro personagem da parábola era a viúva, símbolo dos oprimidos e desamparados na Israel do 1º século, já que a mulher era criada para se casar, ter filhos e cuidar dos afazeres da casa, sendo assim totalmente dependente do marido para sobreviver. Por isso vemos desde os textos da Torá até os dos profetas ensinamentos para proteger a viúva, como por exemplo em Êxodo:
´´ A nenhuma viúva nem órfão afligireis.   Se  de  algum modo os afligires, e eles clamarem a mim, eu certamente ouvirei o seu clamor. E a minha ira se acenderá, e vos matarei à espada; e vossas mulheres ficarão viúvas, e vossos filhos  órfãos.``  
Estes ensinamentos de proteção do órfão e da viúva se repetem em vários textos:
  1. Deuteronômio 10:18, 24:27, 27:19
  2. Jó 22:9, 24:3 e 21
  3. Salmo 68:5
  4. Isaías 1:17, 10:2
Voltando a parábola, agora nós entendemos quem eram os dois opostos que Jesus nos falava.
Mas o que acontece na parábola? Jesus Cristo nos conta que a viúva procura o Juiz pedindo-lhe que fizesse justiça em sua causa contra o adversário. Mas a princípio o juiz não quis lhe fazer justiça. Mas a viúva não desanimou e passou a procurar o juiz todos os dias, insistindo-lhe sem cessar que lhe fizesse justiça. Mas o que parecia impossível, devido a sua perseverança, a viúva alcança, ela consegue fazer com que o juiz julgue sua causa e lhe faça justiça.
Nos últimos versículos(6-7-8) ; Jesus Cristo nos da a lição moral da parábola e nos deixa uma pergunta para reflexão profunda, por isso muitos teólogos consideram estes versículos como ´´crux interpretum``, em especial o versículo 7:
´´E não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que dia e noite clamam a ele, já que é longânimo para com eles?`` (Lucas 18:7)
Os teólogos discutem no versículo 7 qual é a melhor tradução para a palavra grega ``makrothumeo``(transliteração)?
Algumas traduções bíblicas como as de: João Ferreira de Almeida corrigida e revisada fiel, a nova versão internacional, sociedade britânica bíblica, versão católica, e a Bíblia de Jerusalém, traduzem como demorado, tardio, tardará, esperar.
Mas outros teólogos, entre eles Kenneth Bailey, defendem que esta tradução não faz justiça a palavra ´´makrothumeo`` e demonstram que em outros textos bíblicos, tanto do Antigo e Novo Testamento ela é melhor traduzida como paciência ou longanimidade. Vemos este emprego, por exemplo no Velho Testamento em Êxodo:
´´Tendo o Senhor passado perante Moisés, proclamou: Jeová, Jeová, Deus misericordioso e compassivo, tardio em irar-se(makrothumeo) e grande em beneficência e verdade;`` (Êxodo 34:6)
Outro exemplo, agora no Novo Testamento, está na 1º carta a Timóteo, na qual o próprio Paulo afirma que Jesus afasta sua ira para com ele:
´´mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, o principal, Cristo Jesus mostrasse toda a sua longanimidade (makrothumeo), a fim de que eu servisse de exemplo aos que haviam de crer nele para a vida eterna.``(1 Timóteo 1:16)
Mas os judeus acreditavam que Deus só exercia longanimidade para com os filhos da aliança.
Mas Jesus corrige este conceito durante seu messianato pregando que Deus Pai exerce de paciência e misericórdia para com todos os seus filhos, sejam eles da mesma raça ou não, mesma classe social ou não, servo ou escravo, e diz mais o Cristo de Deus, nos orientando a agir da mesma forma que o Pai.
Vemos este ensinamento na parábola do servo imcompassivo. (Mateus 18:23-35)
Portanto, meus irmãos, esta bela parábola é uma exortação ao bom ânimo. Cristo nos estimula a orar e persistir na fé com a certeza absoluta da resposta do Pai para nossas orações e testemunho de fé inabalável. Mas muitas pessoas se interrogam como é que Deus permite tanta barbaridade acontecendo no mundo, marcado pela presença de injustiças, ganância e corrupção. Aparentemente o mal parece prevalecer sobre o bem, mas lembremo-nos irmãos, que Deus está no comando do mundo, e que se permite que o mal estenda suas garras é por que tem seus propósitos de provar nossa fé, perseverança, e confiança. E por ser a perfeita forma do amor, perdão e misericórdia também espera que os filhos desviados se arrependam de seus erros e se voltem para os caminhos do amor eterno. Pode parecer demorado, mas isto ocorre porque Jesus nos afirmou que todos que o Pai lhe deu serião salvos:
´´Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.``
(João 6:37)
Por isso que Jesus ensina que Deus é longânime para com eles, e todo o Evangelho trará, como toda boa notícia, a alegria e a esperança capaz de superar todos os empecilhos do mundo. Porque a promessa de Jesus é a plenitude da vida em comunhão com Deus, que se inicia neste mundo e se estende para a vida eterna. Desta forma Jesus sustenta e consola seus seguidores, já que as dificuldades provisórias de nossa vida mundana se perdem diante da eternidade da vida com Jesus.
Amém, meus irmãos! Para outras reflexões, convido-os para ouvir o Pod amar 3 e aguardo para receber seus comentários e contribuições. Fiquem todos sempre com Deus! PodAmar3/Aparáboladojuizeavivúva.mp3